Céu que me sustenta

Imagem: Gabriel Medeiros

Voos altos e rasantes
Lanço-me no céu azul
- Infinitude -
Onde tudo se abstrai
Oceanos de nuvens
Ondas espumantes
Em mar alto
No céu alto
Mergulho em mim
É silêncio que me fala
Daquilo que calo
Enquanto voo
Linhas cruzam o mar
No céu levam para além
Laços em fios de cobre
Verbo e luz
Exuberância azul
Nadam neste mar
O verde e o sol
Sem fronteiras
Sem peias
Neste céu onde revoo
Nado a vida inteira
Entre sonhos e sonhos
Eu sonho
A salvo de mim

 

Entre parênteses

Passou aqui uma brisa de poesia
(uma tristeza, uma angústia, um sei lá quê)
Talvez eu possa escrever da maresia
(uma dor de não saber bem o porquê)

Certos momentos me tragam de repente
(lembranças vêm e vão sem fixar)
E dá vontade de retorno até a semente
(refazer tudo, enfim, recomeçar)

Mas, claro, voltar não é mais possível
(o jeito é seguir com ou sem tropeço)
Vou, então, sem promessa nem sentido.

Refaço a estrada e um piquete desprezível
(é bem verdade, tudo na vida tem preço)
E sigo, ainda que a passo contido.

 

Valparaíso

Imagem: Mara Medeiros

Assim ao longe
Do alto de um serro
Dentre os tantos serros
De que a cidade é feita
Contemplo o mar
Sua cor não se compara
A qualquer tom de azul
Que uma mulher
É capaz de elencar
Em um catálogo de tintas

 

Mirabolâncias

Já fiz algumas:
Pulsei estranhezas
Rocei pensamentos
Gritei reticências
Chorei silêncios
Pisei olhares

 

Ruminescências

Antes o tempo era verde
Tardes gordas e ensolaradas
Pasto farto
Grama tenra
Mornidão

Mas o sinal do ferro em brasa
Marcado na anca
Ardeu sob o sol
E trovejou
Indignação

Pensou-se em morrer
Ou em sumir
Mas só dor
Atroz
Desilusão

Carecia sair do lugar
Chover, molhar
Que sol?
Sinal?
Reflexão

Por algum recomeço
Exigiu-se começo
Algum meio
Enfim
Definição

Penso que ando ruminante
Nem o mundo perfeito
Nem o antiácido
Produz
Efeito
E não sei mais mugir