Category Archives: Versos

Valparaíso

Imagem: Mara Medeiros

Assim ao longe
Do alto de um serro
Dentre os tantos serros
De que a cidade é feita
Contemplo o mar
Sua cor não se compara
A qualquer tom de azul
Que uma mulher
É capaz de elencar
Em um catálogo de tintas

Festinha particular

Pessoas passam
Eu rio
Desconfiadas
Olham curiosas
Eu mar
Estar só
Enche a minha cabeça
De ideias, de música e de poesia

Ex-Amor

É bom que se saiba
Que se tenha certeza
De todas as dúvidas
Que irão brotar
Das covas rasas
Das prateleiras cheias
Do trago seco
Do olhar…
Quando eu mergulhar
Ah! Quando eu mergulhar
Para fora de nós
Nada estará no lugar
Nada será desculpa
Nenhuma questão
E nenhuma versão
Permanecerão
Nas entranhas
Na garganta seca
No sopro frio na palma da mão
Ninguém vai acudir
Quando eu decidir
(Sei desistir)
Das contas…
Nem restos
Nem pretensões
Darão conta dos trovões
Da chuva, da tempestade:
Suor e lágrimas, ranger de dentes, riso largo (e falso)
Toda loucura será
Tempo fora de lugar
E todos os espaços
Que preenchi (e falhei)
O vazio de mim
Deixarei escorrer
Por entre os dedos
Não se separa impunemente
as cores do mosaico
Sobremesa no prato
Sabor de partida,
Último ato…
Já terminou?
Desde sempre, acabou.
Amor natimorto
Começou numa viagem
E o que resta
São juros (ou juras?)
Patéticas sobras
Horas-extras vazias
Cheias de insistência
Persistência
Impertinência…
E não se espante
Que esta profecia toda
Já aconteceu
Enquanto eu ouvia (e dizia)
“Eu te amo”.

Lembranças

O fórceps
O gesso na clavícula
O peito empedrado de minha mãe
O dedo canhoto na boca
A violeta genciana
O choro de dentro
O berço esplêndido de grades brancas
O meu pai me olhando por trás do cortinado
A cadeirinha azul de madeira com o penico rosa no meio
A fralda de pano e o banho de mangueira
O tomate com sal
O arco-íris: sol e chuva, casamento de viúva
Os Avós – uns sobrando fora da árvore
A minestra com pão e frio
O coelho, o gato, o travesseiro arrastando
A escolinha e a lancheira
O riacho se formando entre as carteiras (Irmã Zenaide não deixou ir ao banheiro)
O choro para dentro
A enchente e a bacia virando barco
A mudança: casa própria da mãe joana
As ruas sem saída
A melhor amiga na janela, roupa igual
A bike sem rodinhas e os joelhos ralados
O carrinho de cachorro-quente
As bonecas na estante
A Judite com o louro no ombro e o chapeuzinho de saco de leite
O Mundo da Criança e a Vila Sésamo
O caderno novo com cheiro de papelaria
O lápis de cor e a má vontade com o verde da bandeira do Brasil
A Professora Cleuza me dando reguada: eu não resolvia a expressão
A tentativa de me expressar fora dos colchetes
O choro por dentro
O colégio de freiras e as tartarugas centenárias passeando pelo pátio
A cantina, o hino nacional (como me comove!), o nome do pai em inglês
O quartinho secreto (no fim era só uma dispensa)
As escadarias vermelhas, tão enceradas que dava dó pisar
O primeiro beijo nunca existiu
O segundo foi o primeiro
O terceiro foi o melhor de todos
A transgressão e a preguiça
A Música
A Praia
O Direito
A Família
O século passado foi ontem…

Acorda

O dia nasce apressado…
Os quadros enfileirados
No álbum em movimento
Mostram rostos sonolentos.
De ponto em ponto, entra e sai
Gente pronta para a luta:
Uns sem café, uns sem sonho,
Uns, preguiça da labuta.
Pessoas brotam nas ruas
E correm feito ponteiros
Marcando a hora apressada
No meio de um fevereiro.
A vida tem dessas coisas!
É sexta de carnaval.
Desperta uma gente afoita:
Um que corre arrastando a mala
Para ser mais um folião;
Outro que se arrasta lento
Por dentro vai remoendo
Mais um dia, mais um leão…
Mais lento é o meu despertar
Na pressa doida do dia
De um sol que já está de rachar
Café sem preço e sem hora
Vai me botando pra fora
De mim